sexta-feira, 13 de julho de 2018

Viva para sempre


União da Vitória não é uma cidade muito popular, nem tem muitos habitantes, mas para os amigos Gabriel e Pablo, essa cidade é o mundo todo, e muito mais. Era uma tarde ensolarada de quarta-feira, dezembro de 1979, os amigos andavam pelo bosque aproveitando o máximo as ferias de verão. Gabriel é tímido e só tem Pablo como amigo, nas mãos um livro de contos, na qual ele lia Gênio do Amor em voz alta. Pablo nunca gostou muito de ler, porém escutava com atenção.
–Pablo, me diz uma coisa: você me acha estranho? – perguntou Gabriel fechando o livro.
Pablo não respondeu de imediato, pensou um pouco. Gabriel o mirava aguardando resposta.
E se é para não mentir, Pablo no fundo o achava um pouco diferente, não anormal, mas não se importava nem um pouco, e mesmo assim gostava do amigo.
–Hum? – fez Gabriel.
–Ah... – fez Pablo–... Sinceramente?...
Gabriel o olhou depressa.
–Claro.
–Sim. Mas o que quê tem? Ninguém é igual a ninguém.
Gabriel ficou de cabeça baixa, pensando.
–Você se lembra de como costumávamos brincar quando criança? – perguntou Pablo na intenção de mudar de assunto, pois sabia que o amigo possuía analises cabisbaixa, e é facilmente frustrado. Há cinco meses os pais dele se divorciaram, onde o pai fora morar com outra mulher.
Mas Gabriel distraído olhava a volta, um pouco longe avistou algo e correu em direção. Pablo correu atrás do amigo.
Pablo alcançou Gabriel. O amigo estava olhando um objeto um tanto estranho. Era uma capsula dessas que vem os brinquedos do famoso chocolate Kinder Ovo. Alaranjada e com algo dentro, porém esta diante dos dois não era tradicional, tampouco. Era grande, com mais ou menos noventa centímetro.
–O quê... Que coisa é essa? – perguntou Pablo.
–Cara, imagina o tamanho do kinder ovo que teve ter... – Gabriel olhava a volta.
De repente a capsula mexeu, como se fosse um ovo preste a chocar, e abriu-se no meio. De dentro saiu um galo português colorido de brinquedo feito de madeira. Não tinha pés, apenas uma mola. O bicho, ou brinquedo, olhou para lados e saiu pulando para dentro da floresta.
Gabriel admirado foi atrás do brinquedo.
–Gabriel aonde que você vai? – gritou Pablo. O amigo não respondeu então ele foi atrás.
Foram correndo entre as árvores e o mato a volta, pisando nas folhas caídas ao chão; passaram por um riacho, onde sem querer molharam os pés; o galo dava pulos longos, Gabriel chegou a perdê-lo de vista.
–Onde ele está? – perguntou Gabriel mais para si do que para o amigo.
Pablo não respondeu, não estava gostando dessa brincadeira.

''...até amanhã; para sempre meu!''

Pablo olhou a volta.
–Você ouviu isso?- perguntou ele.
–Isso o que? – argumentou o amigo.
–Essa voz...
Pablo procurava essa voz que parecia uma melodia, um coral de anjos.
Gabriel não escutou nada, ainda procurava o galo de madeira. Então a alguns metros dali, o galo os olhava, em cima de outra capsula amarela, como se a chocasse. Gabriel e Pablo correram até ele.
O galo abriu o bico e emitiu o som mais estranho que os garotos já tinham ouvido, e de repente saiu pulando até sumir de vista. Essa capsula mexeu e se abriu igual à primeira; e como ela, saíram outros brinquedos. Pablo se assustou tanto que correu para longe desaparecendo.
Dessa vez apareceram quatro super-heróis de brinquedo: um Superman, um Batman, um Homem-Aranha e um Wolverine. Todos flutuavam sorrindo na altura dos olhos do garoto.  Gabriel olhava-os fascinado.
Wolverine se aproximou e expeliu suas seis garras tão de repente que Gabriel se assustou. Todos riram. Então Batman se adiantou e cochichou ao seu ouvido:
—Nós vamos te transformar num super-herói.
O garoto olhou de canto de olho, desconfiado.
Superman veio e lhe deu um beliscão carinhoso na bochecha. O garoto já estava mais relaxado, pois eles sorriam.

—Você acredita em tudo?! — perguntou Wolverine à Gabriel.
—Você é jovem e sonhador— disse Superman sorrindo — Nos dê seu espírito.
Gabriel não entendia, eles falavam rápido. Ele olhou para o lado a procura de Pablo, mas o amigo não parecia estar por perto.
—Estamos apenas começando— explicou-lhe Batman.
—Meu amigo, ele... — disse Gabriel.
—Você viverá para sempre, ele estará te esperando eternamente... — disse Superman voando de um lado para o outro.
—Vocês estão prontos? —Disse Homem-Aranha aos colegas. Os outros heróis se reuniram atrás do aracnídeo.
—Ataque... —cochichou Wolverine, mas Gabriel ouviu.
Ao ouvir isso Homem-Aranha expeliu de uma de suas mãos um jorro de sua teia que grudou nos dois olhos do menino.
—Não! —exclamou o garoto assustado. —Não enxergo nada.
Mas os heróis não deram ouvidos; eles pegaram Gabriel e o levaram para mais dentro da floresta, flutuando. Quando o soltaram, retiraram a teia de seus olhos e o garoto viu algo que o deixou surpreendido. Diante deles, no meio do bosque havia um cubo mágico do tamanho de uma mesa, suas seis cores todas embaralhadas. Os heróis caminhavam em cima do cubo.
—Sempre buscamos sua pessoa. — falava Homem-Aranha.
O garoto a cada instante entendia menos o que eles queriam lhe dizer; será que tudo isso era predestinado?
Ao lado esquerdo próximo a uma árvore havia um grande ampulheta com areia azul escorrendo de cima para baixo, depois de baixo para cima.
Então o quadrado central da parte de cima do cubo se soltou do resto do cubo deixando um espaço escuro.
—Você tem que entrar ali. — disse Homem-Aranha.
Com um pouco de dificuldade os heróis ajudaram Gabriel a entrar no cubo; acima Superman segurava o quadrado faltante.
Perto dali, Pablo se aproximou e não entendeu a cena que via.
—Rápido! Ele vem vindo. —cochichou Wolverine.
—SE ABAIXA! — gritou Batman a Gabriel.
O garoto obedeceu; os três heróis entraram junto com ele no cubo, e Superman largou o quadrado e se jogou para dentro também. O quadrado caiu e se encaixou novamente ao cubo. Pablo correu para apanha-lo, porém ao se aproximar o cubo diminuiu ficando no tamanho normal e exato de em cubo mágico.

''Eu estarei te esperando eternamente como o Sol. ''

O menino apanhou o cubo e montou suas respectivas cores, em vão.

''Viva para sempre, para o momento. ''

Então ouviu passos, pés pisando e esmagando folhas, ele olhou para trás e o viu: um Kinder Ovo grande, com olhos, mãos e até de boné o espiava de longe e tentava se esconder; ao perceber que o garoto o vira, correu. Pablo foi atrás.
Correu por dentro da floresta até sair num outro bosque, o Kinder havia sumido, mas havia alguém sentando em um tronco; um ser pequeno, oval, vestido com traje marrom a rigor, do inicio do século XX, ninguém menos que Humpty Dumpty. Possuía dois olhos vermelhos, como se não dormisse há dias e dentes pontiagudos. Uma aparência perturbadora. Nas mãos ele segurava um pequeno chocolate kinder ovo; ele abriu a embalagem e exclamou:
—CHOCOLATE! ÔÔÔÔÔ ADORO CHOCOLATINHO... — Então mordeu um pedaço. Depois pegou a pequena capsula e a abriu. —BRINQUEDO! MAIS UM PARA MINHA COLEÇÃO. — Ele colocou a miniatura ao lado. — E AGORA?! — Ele então olhou para Pablo. — ACABOU. — E caiu do tronco, se espatifando todo no chão.
Pablo ficou totalmente confuso. Ao olhar melhor para o brinquedo que Humpty havia ganhado no chocolate, se assustou, pois era uma miniatura exata do Gabriel.

''Sim, eu me lembro de cada palavra dita... ''

Ele apanhou a miniatura, junto com o cubo e triste caminhava de volta para casa. No bosque havia várias capsulas laranjas e amarelas, abertas e fechadas, e ele ainda ouvia aquele coral de anjos.

''Sentimentos guardados, jamais serão achados. E o segredo está guardado comigo. ''



NOTA: este conto foi livremente inspirado no videoclipe de Viva Forever, performance de Spice Girls.

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