A mesa era enorme. E o jantar já estava servido. Lucero vestido
elegantemente com um colete e gravata borboleta e Fiorenzo era o convidado
principal. Fiorenzo retirou seu casaco preto de lã e pendurou no chapeleiro,
dobrou pacientemente as mangas da camisa e afrouxou um tanto o nó da sua
gravata, sentia-se sufocado toda vez que usava. Quando foi sentar na ponta da
mesa Lucero o interrompeu dizendo ser ali o seu lugar. Fiorenzo ficou sem
entender. Lucero não era o garçom?
Fiorenzo, então, sentou ao lado. E Lucero na ponta. Quando Lucero pegou
os finos talheres de prata, Fiorenzo viu o que tinha em seu prato: seu coração.
E em seu peito um buraco do tamanho de um punho, tons leve de sangue sujavam
sua camisa branca, e ele horrorizado arregalou os olhos e a boca. Emudecerá em
frente ao choque, ao inesperado.
Lucero começou a cortar meticulosamente em pequenos cubos e devagar os
comia. Era um belo pedaço, o vermelho mais vivo que seus olhos já viram, e
macio, uma seiva apetitosa escoria suavemente como nascido de uma relva de
Dezembro, com salsa e limão era um prato cheio, um prato muito bem preenchido.
Era como se fosse um fruto colido na estação certa. Lucero serviu duas taças do
melhor vinho magnólia, um vinho de terrível imoralidade derramado puramente nas
taças do furor, ora o preferido de Fiorenzo, eles adoravam o gosto doce e
amargo dessa embriaguez. Ao tomar um demorado gole o sabor nostálgico incendiou
sua garganta descendo fundo em sua goela rumo ao fígado. A cada mastigada e engolida
o estado de Fiorenzo ia ficando cada vez mais fraco, sua pressão baixava a cada
instante. Até que ele não agüentou e caiu no chão. Prostrado, ele virou os
olhos lentamente para o outro na mesa, ainda comendo. Sentia-se mastigado por
ele. Lucero, por sua vez, parecia apreciar o que devorava, afinal estava do
jeito que ele queria, aliás, seu gosto estava ainda melhor.
Ao terminar de comer, ele limpou os lábios com guardanapo de pano,
apanhou um charuto que tinha guardado para uma ocasião especial, como esta,
passando por debaixo do nariz, cheirando antes de acender. Enquanto fumava,
taciturnamente ele refletia que alguma vez algum poeta disse que o amor é
ardente, e era isso mesmo que ele sentia agora que seu coração estava sendo
usado como cinzeiro e as cinzas de seu charuto caiam queimando. E depois quando
o amor acabava o que tinha? Um silêncio cíclico e insuportável, já sentido
antes, numa outra época.

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