Primeira
parte
12
de Junho 1982
União
dos Anjos é uma pequena cidade no litoral do Paraná. Tranquila e hospitaleira é
uma cidade onde as pessoas saem para trabalhar e sentem a segurança de voltar e
verem as mesmas pessoas todos os dias.
A
cidade tem um ponto turístico muito visitado, o parque de diversões Poeira-Quente. Este parque possui duas
atrações principais, a montanha russa Sorriso
do Dragão e o Circo do Palhaço Pogo-Zo.
Era
o Dia dos Namorados e Teodoro um jovem que acabara de sair do exército levou
esta noite sua namorada Shirlei, de dezesseis anos, ao parque. Chegaram após o
crepúsculo. Shirlei achava linda a roda gigante à noite e de longe era possível
ver todo o esplendor do parque sobre o cais. O local estava cheio, como de
costume num final de semana, tinha famílias inteiras, crianças correndo, casais
namorando, adolescentes flertando, meninas rindo... Enfim, tinha de tudo.
–
O que você vai fazer quando sair da
prisão? – cochichou Shirlei ao ouvido de Teodoro.
–
Eu vou me divertir. – respondeu ele rindo.
–
O que você considera diversão?
–
Diversão, naturalmente diversão...
“Eu estou emudecida de felicidade”,
pensou Shirlei contente, “estou nos céus,
ouvindo a lira dos anjos, as mais belas notas, a voz de meu namorado”. Teodoro
é carinhoso, ele leva Shirlei pelo braço quando estão andando, é nessa hora que
a garota se sente feliz em ser uma fêmea.
“Parece que estou em um sonho,... sonho sem dormir...”, pensava ela.
Os
pensamentos de Shirlei voavam para longe.
–Oi
casal bonito – chamou um velhinho simpático com um papagaio numa gaiola. –Que
tal um poema?
–Um
realejo! –exclamou Shirlei animada. –
Eu gosto de poesia – complementou olhando para seu namorado.
O
senhorzinho se aproximou girando a manivela com muitos bilhetes de mensagem numa
pequena caixa, uma musica animada tocava enquanto ele fazia isto. Quando parou
o papagaio sistematicamente apanhou um bilhetinho com o bico. O velho pegou e
leu em voz alta:
“caracóis
caminham sob meu umbigo
Enquanto você
enterra teus olhos
Nos meus.
Dois
beija-flores limpam meus ouvidos!”
Quando
terminou, Teodoro sorrindo tirou umas moedas do bolso e o pagou. Porém Shirlei
não tinha gostado muito desse poema. Teodoro, entretanto, pareceu nem dar
importância.
Então
alguém roubou sua atenção. Ali no meio da multidão, no meio da alegria havia
alguém isolado. Um palhaço estava sentado num banco sozinho, segurando vários
balões coloridos, de cabeça baixa, parecia pensativo, até mesmo triste.
Shirlei
comentou sobre isso com seu namorado, mas ele, como sempre, não deu
importância. O palhaço então os mirou.
Teodoro
comprou-lhe uma maçã do amor e disse:
–
Fruto estranho...
Shirlei
olhou depressa para ele. Havia um sorriso em seus lábios, mas ela ficou séria. “Fruto estranho?”, que comentário estranho, ela não soube interpretar.
O
casal decidiu ir à montanha russa, a fila estava enorme, claro, o brinquedo
mais desejado por todos. Shirlei sentiu fome e Teodoro disse que iria comprar
dois cachorros-quentes, e que ela ficasse guardando fila.
Com
o passar dos minutos a fila foi diminuindo lentamente. Shirlei não gostava de
ficar sozinha. Ela ficou observando as pessoas ao redor, pensando em Teodoro. Hoje é sábado e durante toda a semana seu namorado sumiu. A garota sentiu muita falta
dele, e de como ele a faz rir quando começa a dançar. Teodoro é assim, às vezes
some sem dar explicações.
Quando
chegou a vez de Shirlei subir no carrinho, Teodoro ainda não havia voltado e
ela não queria ir sozinha. Saiu da fila e ficou ao lado esperando. Passando-se
vários minutos, que pareceram eternos, brava ela cruzou os braços. Será que ele
foi embora? “Não, ele não faria isso
comigo”, pensou.
Alguém
se aproximou dela.
–Oi
moça– disse uma voz.
A
garota virou-se. Era o palhaço vendedor de balões, o mesmo que ela vira
sozinho.
–Oi...
– respondeu sem jeito.
Shirlei
olhou para o rosto dele, ela sabia quem era o homem por trás, o famoso Pogo-Zo.
Deveria estar já na casa dos quarenta anos, a maquiagem de palhaço não
conseguia esconder o principio das rugas. Os dois ficaram em silencio.
–Está
sozinha? – perguntou ele olhando fixamente para seus olhos. A garota estava
completamente encabulada.
–
Estou esperando meu namorado – respondeu olhando para os lados.
O
palhaço ficou em silêncio a observando. Ela não sabia o que dizer, ficou
quieta.
–
Você quer um balão? –o ofereceu.
–
Não... – não queria ser ridiculamente infantil. –Não tenho dinheiro.
–
É de graça – disse ele rindo, pegou um cor-de-rosa – Aposto que rosa é sua cor favorita.
Ela pegou timidamente. Não queria um balão, queria seu namorado e queria ir embora
daquele parque.
–
Obrigado... – agradeceu ela – Eu... Acho que vou embora.
–
Hã?... E o seu namorado? – perguntou o palhaço. – Ele não irá ficar chateado?
Shirlei
estava confusa. Qual era o real interesse do palhaço?
–Sim,
mas... – começou ela, mas Pogo-Zo a interrompeu.
–Ele
parece gostar tanto de você, pelo menos ao te trazer aqui.
A
garota ficou mais constrangida. Será que o palhaço estava os observando? Será
que ele queria lhe dizer algo?
–
Eu vou embora – disse ela decidida. – Mas se você o vir... – ela sabia que ele não
o veria. – Por favor, diga a ele, que ele tem um sentimento do mais profundo.
Hoje
mais cedo, no colégio, ela tinha feito um cartão de dia dos namorados para
Teodoro, mas o cartão não chegou até ele porque ela não colocou o seu nome. Ao
invés, ela remeteu “Para o gênio do amor”,
no caso ele mesmo.
Após
isso ela se retirou. O palhaço, sem entender, voltou a sentar-se no banco.
No
caminho para casa Shirlei confusa e desconfiada pegou uma ficha e foi até o
telefone público. Discou o numero da casa do Teodoro. O telefone chamou apenas
uma vez, então deu sinal de fora de área e a voz da gravação da operadora
disse:
''Você
não ligou para o número errado! Você não ligou
para o número errado! Seu saldo
de fichas é: zero. Você não
ligou para o número errado! Você não ligou para o número errado! Seu saldo de fichas
é: zero... ''
Sem
entender ela colocou de volta o fone no gancho e foi para casa.
Fim

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