Então o
céu se abriu e vi dois anjos descerem em minha direção. Pegaram nos meus braços
e me levaram para as nuvens. Soltaram-me diante do trono de Deus. Ao meu redor
havia muitos anjos, todos com asas de um branco que pareciam brilhar. Anjos
querubins, com harpas, outros com espadas ou escudos. De primeira, segunda e
terceira esfera. Com suas faces sisudas que causam desconforto até o mais
sereno mortal. E eu sei que me observavam. Ao lado direito do trono de Deus
estava sentado seu único filho que me olhava com um olhar pesaroso. A face de
Deus, porém, eu não conseguia ver, não podia. Então um anjo com seis asas, duas
das quais cobria seu rosto e outras duas cobriam seus pés, aproximou-se de mim
com uma taça, da qual me fez beber o mais amargo dos vinhos. Quando cai de
joelhos outro anjo com um cajado em mãos me levantou. Prometera-me nunca mais
haver pranto nem dor, e que todas as minhas lágrimas iriam secar.
Mas não
era isso que eu vi ao olhar para baixo no mar. Eu me vi num barco, navegando
através dele. Não. Navegava nas minhas lágrimas, entre gritos e desespero.
Sangue meu caia no chão do barco, mas não eram gotas de sangue, eram
sentimentos. Eis que vi tudo o que eu havia feito momentos antes dos anjos me
levarem. Eu no barco. E ele com um
machado em mãos cortando meu pescoço. Morangos de sangue saltaram do meu
jugular nesse momento. Eu me vi perdendo a cabeça. E vi a nuvem vermelha ao
redor. Suspensa. E vi o céu de chumbo onde fui parar. Continuei olhando para o
barco abaixo e os vi pegar e beber o vinho tinto que eu havia comprado no dia
de ontem. Então outro anjo, com uma coroa na cabeça fez-me vestir meu melhor
terno, o de funeral. Foi quando lembrei que tinha visto tudo isso num sonho.
Sim – eu profetizei. Mas no sonho era diferente. No sonho ele havia acomodado
sua corda em meu pescoço e eu saltei.
Quando
olhei novamente para o barco meu corpo já estava em um caixão e eles liam meus
melhores poemas e choravam. Depois jogaram o caixão no mar. Jogaram também meu
diário preto e todos os quadros que eu havia pintado. Então Deus deu sua
palavra e todos os anjos me olhavam, mas eu já nem escutava. Permaneci alienado
em mim mesmo, no meu choque, permanentemente. Eu não chorei. Eu não pedi nada.
Apenas permaneci em silencio, absorto, distante. Sem perceber a musica que a
harpa tocava ou as flautas.
Se
alguém me fizer alguma pergunta ou quiser qualquer satisfação, apenas direi que
não responderei, as respostas estão no meu diário preto que o mar engoliu junto
com minhas lembranças. Todas perdidas no mar. E para sempre. Então eu ergui
minha cabeça, sem mais lágrimas e os encarei. Eu os desafiarei. Eles vão me
exilar. Iram me expulsar do reino dos céus. Mas mesmo que eu seja enviado aos
infernos eu não irei me importar. Mesmo que se passem mil anos. Eu subirei sob
o céu tempestuoso com um sorriso em meus lábios. Derrubarei os muros e os
portões. Meu consolo é que eu tenho uma vida para viver. Uma vida após a morte.
E quando todos morrerem e todos vão morrer, eu os verei a distância.

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