segunda-feira, 9 de julho de 2018

Querubins, capítulo 14, versículo 6 a 12.


Então o céu se abriu e vi dois anjos descerem em minha direção. Pegaram nos meus braços e me levaram para as nuvens. Soltaram-me diante do trono de Deus. Ao meu redor havia muitos anjos, todos com asas de um branco que pareciam brilhar. Anjos querubins, com harpas, outros com espadas ou escudos. De primeira, segunda e terceira esfera. Com suas faces sisudas que causam desconforto até o mais sereno mortal. E eu sei que me observavam. Ao lado direito do trono de Deus estava sentado seu único filho que me olhava com um olhar pesaroso. A face de Deus, porém, eu não conseguia ver, não podia. Então um anjo com seis asas, duas das quais cobria seu rosto e outras duas cobriam seus pés, aproximou-se de mim com uma taça, da qual me fez beber o mais amargo dos vinhos. Quando cai de joelhos outro anjo com um cajado em mãos me levantou. Prometera-me nunca mais haver pranto nem dor, e que todas as minhas lágrimas iriam secar.
Mas não era isso que eu vi ao olhar para baixo no mar. Eu me vi num barco, navegando através dele. Não. Navegava nas minhas lágrimas, entre gritos e desespero. Sangue meu caia no chão do barco, mas não eram gotas de sangue, eram sentimentos. Eis que vi tudo o que eu havia feito momentos antes dos anjos me levarem. Eu no barco. E ele com um machado em mãos cortando meu pescoço. Morangos de sangue saltaram do meu jugular nesse momento. Eu me vi perdendo a cabeça. E vi a nuvem vermelha ao redor. Suspensa. E vi o céu de chumbo onde fui parar. Continuei olhando para o barco abaixo e os vi pegar e beber o vinho tinto que eu havia comprado no dia de ontem. Então outro anjo, com uma coroa na cabeça fez-me vestir meu melhor terno, o de funeral. Foi quando lembrei que tinha visto tudo isso num sonho. Sim – eu profetizei. Mas no sonho era diferente. No sonho ele havia acomodado sua corda em meu pescoço e eu saltei.
Quando olhei novamente para o barco meu corpo já estava em um caixão e eles liam meus melhores poemas e choravam. Depois jogaram o caixão no mar. Jogaram também meu diário preto e todos os quadros que eu havia pintado. Então Deus deu sua palavra e todos os anjos me olhavam, mas eu já nem escutava. Permaneci alienado em mim mesmo, no meu choque, permanentemente. Eu não chorei. Eu não pedi nada. Apenas permaneci em silencio, absorto, distante. Sem perceber a musica que a harpa tocava ou as flautas.
Se alguém me fizer alguma pergunta ou quiser qualquer satisfação, apenas direi que não responderei, as respostas estão no meu diário preto que o mar engoliu junto com minhas lembranças. Todas perdidas no mar. E para sempre. Então eu ergui minha cabeça, sem mais lágrimas e os encarei. Eu os desafiarei. Eles vão me exilar. Iram me expulsar do reino dos céus. Mas mesmo que eu seja enviado aos infernos eu não irei me importar. Mesmo que se passem mil anos. Eu subirei sob o céu tempestuoso com um sorriso em meus lábios. Derrubarei os muros e os portões. Meu consolo é que eu tenho uma vida para viver. Uma vida após a morte. E quando todos morrerem e todos vão morrer, eu os verei a distância.


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