A
Catedral era a décima, e esta era a terceira vez. Fiorenzo foi quem abriu as
duas folhas da porta de entrada e caminhou até o altar. Lucero vinha atrás com
uma corda em mãos. Corda
que ele prendeu ao teto, onde caia até a altura das cabeças de ambos. Fiorenzo
estava com os ombros caídos de derrota. Uma vida triste e vazia e sem
esperanças não merecia ser vivida.
Eis
que Lucero acomodou a corda no pescoço de Fiorenzo, e Fiorenzo saltou para a
morte. O outro virou o rosto, não queria ver. Quando ouviu o estalo do pescoço
quebrando, ele deu as costas e com andar pausado saiu. Do lado de fora ele via
a primavera indo embora. O rouxinol também levantava voo da árvore que durante
meses tinha sido seu lar.
O
corpo de Fiorenzo balançava de um lado para outro, devagar, como um pêndulo.
Nos lábios um leve sorriso. Que alívio. Quando acordou estava no céu. Bom, era
isso que ele imaginava do céu. Estava num lugar todo branco, o mais puro
branco. Algo parecia familiar, sim. Era uma estação de trem, e estava deserta. Entretanto,
ouvia sons suaves de violino. Se for um sonho, não queria mais acordar, como és
belo. Ele andava, mas parecia flutuar. Sentia o perfume das rosas. Alguém se
aproximava. Era ela. Quem ele viera encontrar. Uma mulher vestida de branco
caminhava em sua direção. Anjos ao seu redor e um bebê nos braços. Uma fisionomia
reluzente de elevação, de ternura. Nobre. Brilhava mais que joias raras. De um
brilho próprio e único. Que encanto é esse?
Ela
é a rainha. Mais belas que os anjos. Mais belas que todas as rosas. Impossível
de se pintar num quadro. Não há de haver artista no mundo dos vivos – ou dos
mortos, capaz de reproduzir tanta inocência. Um espírito de alegria que há anos
Fiorenzo não sentia tomou conta do seu peito, da sua mente. Esse é o tesouro
que ele tanto buscou. Perfeição em extraordinária formosura, distinta, como uma
mãe deve ser. Então ela falou. E sua voz era mais bela que todos os cantos dos
pássaros. Era musica. “Não tenha mais medo” disse, “agora estamos aqui”. Sim, estamos aqui. Agora. E para sempre. O medo
se esfumaçou, junto da tristeza, e as lágrimas já não nasciam mais. As
cicatrizes nos pulsos desapareceram, como se a carne as absorvesse. Era uma
imensa paz difícil de explicar. Algo nunca sentido antes. As más lembranças que
durante anos estavam perto, agora sumiram. Ele abriu os braços, estava pronto,
sentia-se preparado para o melhor. Para o infinito. Ora, amor de mãe. Ele
sentia todo esse amor, e sabia que de agora em diante iria sentir para todo o
sempre de um modo espiritual.
Nota do Autor: em homenagem
e com todo meu amor a minha mãe.

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