terça-feira, 3 de julho de 2018

O Último Frágil Suspiro


A Catedral era a décima, e esta era a terceira vez. Fiorenzo foi quem abriu as duas folhas da porta de entrada e caminhou até o altar. Lucero vinha atrás com uma corda em mãos. Corda que ele prendeu ao teto, onde caia até a altura das cabeças de ambos. Fiorenzo estava com os ombros caídos de derrota. Uma vida triste e vazia e sem esperanças não merecia ser vivida.
Eis que Lucero acomodou a corda no pescoço de Fiorenzo, e Fiorenzo saltou para a morte. O outro virou o rosto, não queria ver. Quando ouviu o estalo do pescoço quebrando, ele deu as costas e com andar pausado saiu. Do lado de fora ele via a primavera indo embora. O rouxinol também levantava voo da árvore que durante meses tinha sido seu lar.
O corpo de Fiorenzo balançava de um lado para outro, devagar, como um pêndulo. Nos lábios um leve sorriso. Que alívio. Quando acordou estava no céu. Bom, era isso que ele imaginava do céu. Estava num lugar todo branco, o mais puro branco. Algo parecia familiar, sim. Era uma estação de trem, e estava deserta. Entretanto, ouvia sons suaves de violino. Se for um sonho, não queria mais acordar, como és belo. Ele andava, mas parecia flutuar. Sentia o perfume das rosas. Alguém se aproximava. Era ela. Quem ele viera encontrar. Uma mulher vestida de branco caminhava em sua direção. Anjos ao seu redor e um bebê nos braços. Uma fisionomia reluzente de elevação, de ternura. Nobre. Brilhava mais que joias raras. De um brilho próprio e único. Que encanto é esse?
Ela é a rainha. Mais belas que os anjos. Mais belas que todas as rosas. Impossível de se pintar num quadro. Não há de haver artista no mundo dos vivos – ou dos mortos, capaz de reproduzir tanta inocência. Um espírito de alegria que há anos Fiorenzo não sentia tomou conta do seu peito, da sua mente. Esse é o tesouro que ele tanto buscou. Perfeição em extraordinária formosura, distinta, como uma mãe deve ser. Então ela falou. E sua voz era mais bela que todos os cantos dos pássaros. Era musica. “Não tenha mais medo” disse, “agora estamos aqui”.  Sim, estamos aqui. Agora. E para sempre. O medo se esfumaçou, junto da tristeza, e as lágrimas já não nasciam mais. As cicatrizes nos pulsos desapareceram, como se a carne as absorvesse. Era uma imensa paz difícil de explicar. Algo nunca sentido antes. As más lembranças que durante anos estavam perto, agora sumiram. Ele abriu os braços, estava pronto, sentia-se preparado para o melhor. Para o infinito. Ora, amor de mãe. Ele sentia todo esse amor, e sabia que de agora em diante iria sentir para todo o sempre de um modo espiritual.




Nota do Autor: em homenagem e com todo meu amor a minha mãe.


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