União
da Vitória não é uma cidade muito popular, nem tem muitos habitantes, mas para
os amigos Gabriel e Pablo, essa cidade é o mundo
todo, e muito mais. Era uma tarde ensolarada de quarta-feira, dezembro
de 1979, os amigos andavam pelo bosque aproveitando o máximo as ferias de
verão. Gabriel é tímido e só tem Pablo como amigo, nas mãos um livro de contos,
na qual ele lia Gênio do Amor
em voz alta. Pablo nunca gostou muito de ler, porém escutava com atenção.
–Pablo, me diz uma coisa: você
me acha estranho? – perguntou Gabriel fechando o livro.
Pablo não respondeu de imediato,
pensou um pouco. Gabriel o mirava aguardando resposta.
E se é para não mentir, Pablo
no fundo o achava um pouco diferente, não anormal,
mas não se importava nem um pouco, e mesmo assim gostava do amigo.
–Hum? – fez Gabriel.
–Ah... – fez Pablo–... Sinceramente?...
Gabriel o olhou depressa.
–Claro.
–Sim. Mas o que quê tem?
Ninguém é igual a ninguém.
Gabriel ficou de cabeça baixa,
pensando.
–Você se lembra de como costumávamos
brincar quando criança? – perguntou Pablo na intenção de mudar de assunto, pois
sabia que o amigo possuía analises cabisbaixa, e é facilmente frustrado. Há
cinco meses os pais
dele se divorciaram, onde o pai fora morar com outra mulher.
Mas Gabriel distraído olhava a
volta, um pouco longe avistou algo e correu em direção. Pablo
correu atrás do amigo.
Pablo alcançou Gabriel. O amigo
estava olhando um objeto um tanto estranho. Era uma capsula dessas que vem os
brinquedos do famoso chocolate Kinder Ovo. Alaranjada e com algo dentro, porém
esta diante dos dois não era tradicional, tampouco. Era grande, com mais ou
menos noventa centímetro.
–O quê... Que coisa é essa? –
perguntou Pablo.
–Cara, imagina o tamanho do
kinder ovo que teve ter... – Gabriel olhava a volta.
De repente a capsula mexeu,
como se fosse um ovo preste a chocar, e abriu-se no meio. De dentro saiu um
galo português colorido de brinquedo feito de madeira. Não tinha pés, apenas
uma mola. O bicho, ou brinquedo, olhou para lados e saiu pulando para dentro da
floresta.
Gabriel admirado foi atrás do
brinquedo.
–Gabriel aonde que você vai? –
gritou Pablo. O amigo não respondeu então ele foi atrás.
Foram correndo entre as árvores
e o mato a volta, pisando nas folhas caídas ao chão; passaram por um riacho,
onde sem querer molharam os pés; o galo dava pulos longos, Gabriel chegou a
perdê-lo de vista.
–Onde ele está? – perguntou Gabriel
mais para si do que para o amigo.
Pablo não respondeu, não estava
gostando dessa brincadeira.
''...até
amanhã; para sempre meu!''
Pablo olhou a volta.
–Você ouviu isso?- perguntou
ele.
–Isso o que? – argumentou o
amigo.
–Essa voz...
Pablo procurava essa voz que
parecia uma melodia, um coral de anjos.
Gabriel não escutou nada, ainda
procurava o galo de madeira. Então a alguns metros dali, o galo os olhava, em cima
de outra capsula amarela, como se a chocasse. Gabriel e Pablo correram até ele.
O galo abriu o bico e emitiu o
som mais estranho que os garotos já tinham ouvido, e de repente saiu pulando
até sumir de vista. Essa capsula mexeu e se abriu igual à primeira; e como ela,
saíram outros brinquedos. Pablo se assustou tanto que correu para longe
desaparecendo.
Dessa vez apareceram quatro
super-heróis de brinquedo: um Superman,
um Batman, um Homem-Aranha e um Wolverine.
Todos flutuavam sorrindo na altura dos olhos do garoto. Gabriel olhava-os fascinado.
Wolverine se aproximou e
expeliu suas seis garras tão de repente que Gabriel se assustou. Todos riram. Então
Batman se adiantou e cochichou ao seu ouvido:
—Nós vamos te transformar num
super-herói.
O garoto olhou de canto de
olho, desconfiado.
Superman veio e lhe deu um
beliscão carinhoso na bochecha. O garoto já estava mais relaxado, pois eles
sorriam.
—Você acredita em tudo?! — perguntou
Wolverine à Gabriel.
—Você é jovem e sonhador— disse
Superman sorrindo — Nos dê seu espírito.
Gabriel não entendia, eles
falavam rápido. Ele olhou para o lado a procura de Pablo, mas o amigo não
parecia estar por perto.
—Estamos apenas começando— explicou-lhe
Batman.
—Meu amigo, ele... — disse Gabriel.
—Você viverá para sempre, ele
estará te esperando eternamente... — disse Superman voando de um lado para o
outro.
—Vocês estão prontos? —Disse
Homem-Aranha aos colegas. Os outros heróis se reuniram atrás do aracnídeo.
—Ataque... —cochichou
Wolverine, mas Gabriel ouviu.
Ao ouvir isso Homem-Aranha
expeliu de uma de suas mãos um jorro de sua teia que grudou nos dois olhos do
menino.
—Não! —exclamou o garoto
assustado. —Não enxergo nada.
Mas os heróis não deram
ouvidos; eles pegaram Gabriel e o levaram para mais dentro da floresta,
flutuando. Quando o soltaram, retiraram a teia de seus olhos e o garoto viu
algo que o deixou surpreendido. Diante deles, no meio do bosque havia um cubo
mágico do tamanho de uma mesa, suas seis cores todas embaralhadas. Os heróis
caminhavam em cima do cubo.
—Sempre buscamos sua pessoa. —
falava Homem-Aranha.
O garoto a cada instante
entendia menos o que eles queriam lhe dizer; será que tudo isso era
predestinado?
Ao lado esquerdo próximo a uma
árvore havia um grande ampulheta com areia azul escorrendo de cima para baixo,
depois de baixo para cima.
Então o quadrado central da
parte de cima do cubo se soltou do resto do cubo deixando um espaço escuro.
—Você tem que entrar ali. —
disse Homem-Aranha.
Com um pouco de dificuldade os
heróis ajudaram Gabriel a entrar no cubo; acima Superman segurava o quadrado
faltante.
Perto dali, Pablo se aproximou
e não entendeu a cena que via.
—Rápido! Ele vem vindo.
—cochichou Wolverine.
—SE ABAIXA! — gritou Batman a Gabriel.
O garoto obedeceu; os três
heróis entraram junto com ele no cubo, e Superman largou o quadrado e se jogou
para dentro também. O quadrado caiu e se encaixou novamente ao cubo. Pablo
correu para apanha-lo, porém ao se aproximar o cubo diminuiu
ficando no tamanho normal e exato de em cubo mágico.
''Eu
estarei te esperando eternamente como o Sol. ''
O menino apanhou o cubo e
montou suas respectivas cores, em vão.
''Viva
para sempre, para o momento. ''
Então ouviu passos, pés pisando
e esmagando folhas, ele olhou para trás e o viu: um Kinder Ovo grande, com
olhos, mãos e até de boné o espiava de longe e tentava se esconder; ao perceber
que o garoto o vira, correu. Pablo foi atrás.
Correu por dentro da floresta
até sair num outro bosque, o Kinder havia sumido, mas havia alguém sentando em
um tronco; um ser pequeno, oval, vestido com traje marrom a rigor, do inicio do
século XX, ninguém menos que Humpty Dumpty. Possuía dois olhos vermelhos,
como se não dormisse há dias e dentes pontiagudos. Uma aparência perturbadora.
Nas mãos ele segurava um pequeno chocolate kinder ovo; ele abriu a embalagem e
exclamou:
—CHOCOLATE! ÔÔÔÔÔ ADORO
CHOCOLATINHO... — Então mordeu um pedaço. Depois pegou a pequena capsula e a
abriu. —BRINQUEDO! MAIS UM PARA MINHA COLEÇÃO. — Ele colocou a miniatura ao
lado. — E AGORA?! — Ele então olhou para Pablo. — ACABOU. — E caiu do tronco,
se espatifando todo no chão.
Pablo ficou totalmente confuso.
Ao olhar melhor para o brinquedo que Humpty havia ganhado no chocolate, se
assustou, pois era uma miniatura exata do Gabriel.
''Sim,
eu me lembro de cada palavra dita... ''
Ele apanhou a miniatura,
junto com o cubo e triste caminhava de volta para casa. No bosque havia várias capsulas
laranjas e amarelas, abertas e fechadas, e ele ainda ouvia aquele coral de
anjos.
''Sentimentos
guardados, jamais serão achados. E o segredo está guardado comigo. ''
NOTA: este conto foi livremente inspirado no videoclipe de Viva Forever, performance de Spice Girls.