sábado, 4 de agosto de 2018

Um Milhão de Dólares

No alto do Morro dos Uivos, na Transilvânia, perto do castelo do Conde Drácula, está localizada a casa do Dr. M, um corcunda, cientista e considerado maluco, que vive solitário, apenas a companhia de suas experiências. Seu laboratório é grande e mal cuidado. Espalhadas por quase toda parte há diversas macas, mesas, dezenas de tubos de ensaios de vários tamanhos e diversos trecos indefinidos. No teto uma lâmpada ilumina mal o local.
Dr. M. não está em seu laboratório, mas há alguém ali. Um menino de dez anos, seu nome é Pablo. Ele estava parado no sinistro laboratório do doutor, seus olhos corriam cheios de curiosidades pelas paredes e objetos. Ao se aproximar, ele percebeu então que em três macas havia corpos cobertos por lençóis amarelados que repousavam mortalmente. O garoto permaneceu parado à espera do Dr. M, tinha muita vontade de mexer e fuçar, porém sempre lembrava que sua mãe vive dizendo que é falta de educação mexer nas coisas dos outros, sobretudo na casa dos outros e mais ainda na ausência dos outros.
Foi então que uma porta do cômodo se abriu e o doutor M entrou caminhando com dificuldade por causa de sua perna manca. Seu jeito corcunda e o rosto torto, resultado de um derrame, podiam assustar qualquer criança, mas não à Pablo.
- Então o garotinho quer um bichinho de estimação. – disse o corcunda, não era exatamente uma pergunta, era como se continuasse uma conversa já começada. Quando ele se aproximou o garoto pode sentir um cheiro adocicado de remédio que parecia vir do doutor.
- Quero sim, senhor – respondeu educadamente.
O Dr. Olhou fixamente para os olhos do garoto que percebeu que o olho direito dele era mais redondo e tinha o dobro do tamanho em comparação com o do olho esquerdo, “por que será?”, ele se perguntou.
- Tenho uns especiais aqui – explicou dando as costas ao garoto, virando-se para a primeira maca.
- Você não teria um morcego?!
Dr. M fingiu não ouvir e puxou o lençol da maca, onde Pablo pode ver com clareza algo que jamais pensou que veria a não ser na tevê ou em livros. Ali deitada havia uma múmia. A princípio ele achou parecido com uma estátua pelo aspecto duro e imponente. Subitamente a múmia pulou de um salto, assustando o garoto. Mas não o atacou, ao invés ela começou a dançar de forma desconexa e completamente sem ritmo ou ginga. O garoto não se aguentou e começou a dar gostosas gargalhadas, deixando o doutor sem jeito diante da dança zumbi.
- Essa está em construção! – explicou ele agarrando um dos braços da múmia dançante e arrastando-a para longe de seus olhos.
- Ela é um pouco alta. Você por acaso não teria um cachorrinho?! – disse Pablo.
O doutor lhe lançou um olhar sério, aquele tipo de olhar que mamãe lança sempre quando ele mente que lavou as mãos antes de comer, e ao contrario de mamãe o doutor não ralhou com ele, apenas disse:
- Veremos – e caminhou até a segunda maca e puxou o lençol.
Dessa vez um lobisomem manso pulou para o chão e sentou como se fosse um cachorro carinhoso. Usava o que restava de roupas de gente, uma camiseta listrada e uma bermuda bege, ambas rasgadas, na cabeça um boné de aba virada para trás dando-lhe um aspecto maroto enquanto balançava o rabo freneticamente. Novamente Pablo não se assustou, aliás ele adorava histórias sobrenaturais. Ele tirou uma bolinha de borracha de um de seus bolsos, mostrou ao lobo, que ficou de olhos atentos, e jogou longe. Rapidamente o lobisomem correu atrás da bolinha e mais rapidamente voltou, mas não trouxe a bolinha consigo, não. Ao invés trazia à boca uma das pernas da múmia, fazendo o doutor arregalar os olhos e balançar a cabeça negativamente. O lobo soltou a perna da múmia aos pés de Pablo e sentou diante dele balançando novamente o rabo como se aguardasse uma nova jogada, o garoto apenas acariciou sua cabeça. Os olhos castanhos do lobo brilharam parecendo sorrir e pareciam conversar com ele, uma conversa sincera e sem palavras.
- Agora vamos ao último – disse o doutor M.
Quando ele puxou o lençol da última maca Pablo viu um Frankenstein verde de cabeça quadrada, este diferente dos demais não se mexeu, aliás parecia dormir.
Dr. M com uma chave apertou um parafuso frouxo na jugular de Frankenstein que de repente abriu seus olhos que eram cada um de uma cor, esticou os braços para sua frente, como um sonâmbulo, e em pé saiu andando em linha reta sem perceber exatamente onde estava indo. Foi andando, andando, andando, não vendo a parede a frente bateu com tudo e caiu para trás totalmente nocauteado.
O doutor então decepcionado que nenhuma de seus três experimentos estavam assustadoramente suficiente nem para dar medo a uma criança de dez anos, foi até o Frankenstein e começou a examina-lo.
O garoto voltou sua atenção às macas onde repousavam os experimentos e percebeu que havia etiquetas em cada qual. Ele puxou a etiqueta da maca do meio, a do lobisomem e leu:
Nome: Romulo P. P.
Idade: 10 anos
Valor: US$ 1.000,000
- Ah... esse vale muito...- pensou ele.

- Acorda Pablo – chamou uma voz.
O garoto sonolento abriu os olhos, não tinha certeza de onde estava. Encontrava-se na sala de aula. Havia adormecido na carteira, a turma toda o olhava. Seu amigo Rômulo da carteira atrás quem o cutucará acordando-o. Na frente da sala a professora de Língua Portuguesa o olhava por cima dos óculos, mas não parecia brava.
- Dormindo de novo, sr. Pablo?!
- Desculpe professora – disse ela baixo, mas o suficiente para ser ouvido, morrendo de vergonha.
- Você está bem? – perguntou seu amigo da carteira ao lado que estava com o braço enfaixado.
Pablo respondeu que sim, mas estava intrigado. Tivera um sonho engraçado. Não conseguia lembrar exatamente de tudo, mas tinha um corcunda e uma múmia, talvez.
Decidido a deixar para lá o sonho, ele pegou seu caderno e lápis e voltou a copiar a lição, sem lembrar nunca mais do tal sonho.